Julia Schmitz | Arquitetura

Arquitetura e branding: quando o espaço também conta a história da marca

Esses dias, andando pela Zona Sul do Rio de Janeiro, me deparei com uma fachada de loja da Havaianas que chamou imediatamente a minha atenção. Parei, tirei uma foto e segui meu caminho.Mas a imagem ficou na cabeça.

Fiquei pensando em como a arquitetura tem o poder de comunicar uma marca antes mesmo de qualquer pessoa entrar em uma loja. Formas, cores, materiais, iluminação, proporções e até a relação do edifício com a calçada são capazes de provocar sensações, criar associações e transmitir valores.

Naquele caso, havia algo ainda mais interessante: eu não precisava ler o nome da marca para saber que aquela fachada era da Havaianas.E isso diz muito sobre a força de uma identidade bem construída.

Quando a arquitetura vira parte do branding

Branding é, de forma simplificada, a maneira como uma marca é percebida pelas pessoas. É o conjunto de elementos, valores, comportamentos e experiências que fazem alguém reconhecer uma marca, criar uma conexão com ela e, eventualmente, escolhê-la em vez de outra.

Normalmente, quando pensamos em branding, pensamos em logotipo, identidade visual, cores, tipografia, embalagens ou campanhas publicitárias. Mas existe uma outra dimensão dessa identidade que muitas vezes é subestimada: o espaço físico.

É aí que branding e arquitetura comercial se encontram. A arquitetura tem a capacidade de transformar conceitos abstratos (como personalidade, posicionamento, valores e propósito) em algo concreto e sensorial.

A marca deixa de estar apenas no papel ou na tela e passa a existir no espaço.Ela aparece na fachada, nos materiais, nas cores, na iluminação, no mobiliário, na circulação, na disposição dos produtos e até na maneira como o cliente é recebido.

Por isso, um bom projeto de arquitetura comercial não deveria começar apenas com a pergunta: “Que estética queremos para essa loja?” Uma pergunta muito mais interessante seria: “O que queremos que as pessoas sintam quando estiverem aqui?”

A fachada como primeiro ponto de contato com a marca

Antes de entrar em uma loja, o cliente já teve uma experiência com ela. A fachada é esse primeiro contato.

Em poucos segundos, ela precisa comunicar alguma coisa: sofisticação, descontração, inovação, tradição, exclusividade, brasilidade, tecnologia, proximidade ou qualquer outro atributo que faça parte do posicionamento daquela marca.

No caso da Havaianas, a comunicação é quase instantânea. A combinação de cores, a linguagem gráfica e a atmosfera descontraída remetem a um universo muito específico: verão, praia, Brasil, leveza e informalidade. A própria marca trabalha sua identidade a partir dessa associação com a brasilidade e com o lifestyle brasileiro. E quando isso chega à arquitetura, o resultado é ainda mais potente.

Na fachada que encontrei no Rio, o branco predominante, o vermelho vibrante e os elementos gráficos criam uma composição que conversa imediatamente com esse imaginário.

Mas existe outro detalhe que torna a experiência ainda mais interessante: o território. O calçadão de pedra portuguesa, tão característico do Rio de Janeiro, está ali na frente da loja. A arquitetura não está simplesmente inserida na cidade. Ela conversa com a cidade. E isso cria uma associação poderosa entre marca, lugar e memória. A experiência não acontece em qualquer lugar. Acontece no Rio.

Arquitetura comercial também é experiência de marca

Quando falamos em arquitetura comercial, é comum pensar primeiro na funcionalidade: circulação, exposição de produtos, aproveitamento do espaço, conforto, iluminação e operação. Tudo isso é fundamental mas uma loja pode funcionar perfeitamente e, ainda assim, não construir uma experiência memorável. É justamente nesse ponto que entra o design de experiência.

O espaço precisa responder não apenas a necessidades funcionais, mas também emocionais.

  • Que sensação o cliente tem ao entrar?
  • O ambiente é convidativo ou intimidador?
  • Ele entende facilmente onde está e para onde deve ir?
  • Os materiais reforçam o posicionamento da marca?
  • A iluminação valoriza os produtos?
  • A fachada desperta curiosidade?
  • Existe coerência entre o que a marca promete e aquilo que o espaço entrega?

Essas perguntas fazem parte do projeto tanto quanto uma planta bem resolvida. Arquitetura comercial é, também, uma ferramenta de comunicação.

Pensar em um projeto de arquitetura vai muito além de escolher cores bonitas ou materiais da moda. Cada escolha deve fazer sentido dentro de uma história maior.

Assim o resultado deixa de ser apenas um espaço bonito, ele se torna reconhecível.

E, principalmente, ele pode fazer com que uma marca deixe de ser apenas um nome para se transformar em uma experiência que as pessoas conseguem sentir, lembrar e associar a um lugar. É nesse encontro entre arquitetura, branding e experiência que acredito estar uma das grandes forças da arquitetura comercial contemporânea.